Lisboa

Os Invisíveis

Fica aqui uma reportagem que escrevi o ano passado. Quem vive em Lisboa, é normal que já tenha passado por estas pessoas na sua rotina, a fazerem a sua “volta”, para os que não são daqui, esta é mais uma oportunidade para saber mais dos ciclos desta (e de muitas outras) cidade (s).

Nas ruas de Lisboa, sem-abrigos e voluntários

DSC_0284São seis da tarde. As nuvens, carregadas, adensam o crepúsculo na cidade de Lisboa. A chuva, grossa e insistente, inunda esta ruela de prédios e armazéns toscos. Todos os dias do ano, alguém num destes armazéns prepara entre 300 e 350 refeições que são distribuídas, nas ruas de Lisboa, aos sem-abrigo ou a pessoas que estão com dificuldade em ter dinheiro para a alimentação.

É num destes “armazéns”, transformado em cozinha e em local de armazenamento de comida, que o chefe de cozinha Frederico começa a elaborar o jantar, que é, muitas vezes, a única refeição do dia destas pessoas necessitadas ou carentes que vão à rua em busca da carrinha do centro ou dos carros dos voluntários de onde começa a distribuição de comida ou bens de primeira necessidade.

O Centro de Apoio ao Sem-Abrigo (C.A.S.A) distribui refeições quentes e embaladas 365 dias por ano na zona de Lisboa, do Porto, de Coimbra, de Faro, de Setúbal, de Cascais e na Região Autónoma da Madeira. Em Portugal já são 1000 as refeições distribuídas todos os dias do ano a pessoas que são invisíveis para a sociedade.

Cheira a feijoada, mas a carne é pouca. Junta-se mais feijão e verduras. A regra aqui é simples: “Comias isso? Chegava essa quantidade? Se Sim, então pode-se usar isso e é essa a medida certa”, avisam, logo nas primeiras perguntas dos voluntários, o chefe e a coordenadora Graça Mateus.

São sete e meia da tarde, entretanto os voluntários foram chegando. Paula Barata já trás os bolos de pastelaria do Hotel Ibis José Malhoa. A comida já está embalada e a que sobrou da volta de ontem está a aquecer.

O chefe já foi embora. Diz que o ambiente da volta na rua é muito pesado para ele. “Tem uma carga psicológica muito forte. Assim, ao fazer o que sei melhor consigo ajudar sem ter de viver essa pressão”. Cozinha todas as segundas-feiras 300 refeições nesta cozinha com capacidade e condições para fazer apenas 50.

Já alguém foi buscar o pão e os bolos da pastelaria Talismã. O CASA conta com a ajuda e contribuição de alguns restaurantes e pastelarias. Por vezes, conta ainda com a ajuda de algumas empresas que fazem doações mais ou menos esporádicas.

Quando faltam as ajudas, os voluntários contribuem com dinheiro para comprar o que for preciso ou então trazem produtos alimentares de casa.

Nuno lava as panelas, demasiado grandes para a banca que tem menos de metade do tamanho delas.

Cai água no chão e no avental, escorre e molha os pés do voluntário. Lavar a loiça aqui é uma tarefa árdua e exige alguma mestria.

Cada bolo é embrulhado em prata e colocado no saco para distribuição. O pão vai noutro saco. Estão muitas mãos a trabalhar ao mesmo tempo e as conversas são variadas: situações caricatas da volta da semana passada, o tempo, alguma notícia…

“Toca a despachar, já estamos atrasados!”Grita a coordenadora a tentar que a equipa de voluntários acabe de organizar as coisas para sair para a rua.

Graça Mateus confessa que lhe custa muito mais fazer voluntariado no inverno, “No final da volta eles ficam com comida quente no estômago, mas vão dormir na rua ao relento, a apanhar frio e chuva, e eu posso ir para minha casa tomar um banho quente e descansar numa cama confortável. Penso muitas vezes neles e sobre como estarão a passar a noite. ”

O voluntariado transforma tanto os que ajudam quanto os que são ajudados. “Assim que chegamos aqui tornamo-nos, automaticamente, pessoas diferentes. Alteramos os outros tal como eles nos alteram a nós”. Manuela, missionária e presidente da instituição de solidariedade social “Consigo Mais”, defende que as pessoas que começam a fazer voluntariado tendem a ficar mais conscientes de determinados problemas sociais, mais especificamente, os associados aos sem-abrigo.           Ao participarem em actividades que visam promover o bem-estar dos que vivem pior, as pessoas sentem que estão a agir bem e, por isso, sentem-se realizadas.

A equipa carrega o carro de um dos voluntários mais antigos e segue viagem. O nuno e a Sónia vão fazer uma volta mais pequena e levam a carrinha do CASA. Até lá já todos apanharam a primeira molha.

A primeira paragem é nas docas de Santa Apolónia com os senhores Joaquim e Manuel. O senhor Joaquim gosta de escrever rimas mas baralha muito as coisas e nem sempre se encontra sóbrio, o senhor Manuel gosta do copinho, como ele próprio diz mas está sempre asseado e pronto para conversar.

Com a chuva, as conversas são mais rápidas. Os corpos estão cansados e eles tentam aquecer-se no meio dos cartões e das mantas. Têm os seus pertences em sacos de plástico. O senhor Joaquim tem também uma garrafa de vinho junto ao travesseiro feito de farrapos e roupas que lhes vão dando.

As capas da chuva não são suficientes. Os ténis e as calças já estão molhados. O frio e o vento na rua também se fazem sentir.

Graça Mateus diz que esta é uma grande forma de praticar o amor altruísta em todo o seu sentido. Disponibilizando-se aos outros sem esperar nada em troca. Embora saliente que se recebe mais do que se dá. Porque “o que se vive no voluntariado dá forças e ensina para que não me deixe derrubar ao mínimo problema. Aprendi um pouco com as desgraças dos outros a ser mais forte”.

Os voluntários despedem-se com um complacente “Boa noite… Até Segunda”e rumam para a estação de Santa Apolónia. Lá são muitas as pessoas à procura da refeição e de uma palavra amiga, porque “mais do que fome de alimentos, o sem-abrigo tem fome de palavras”, conta Carlos António, 35 anos. É voluntário há cerca de quatro meses.

Nesta gente que vai aparecendo, no estacionamento da estação de Santa Apolónia, há um pouco de tudo. Imigrantes legais e ilegais, sem trabalho ou com um trabalho que não lhe dá o suficiente para as despesas. Casos de dependência de álcool e drogas, em jovens e mais velhos. Casos de abandono ou de burla. Casos comuns e casos desesperados. Histórias de perseverança e fracasso, de azar e de mágoa, histórias de solidão, histórias de amor. O que todas estas histórias têm em comum é o mesmo fim triste ou a iminência dele: a rua.

Segundo a base de dados anunciada pelo governo em Março de 2009, a população sem-abrigo é 84% masculina. Mais de metade tem entre 30 e 49 anos de idade e 54% tem o sexto ano de escolaridade. Os voluntários confirmam que, de facto, existem mais homens na rua do que mulheres, é o que constatam pela sua experiência. No que toca à escolaridade, não podem precisar.

A Graça Mateus diz que devemos olhar para estas pessoas através do conceito de ser humano e não de sem-abrigo, com todo o esteriótipo que lhe está associado. Porque “hoje estou bem e não me falta nada, mas não sei onde vou estar amanhã”. Não devemos apontar-lhes o dedo, julgá-los ou exigir-lhes certas coisas porque estão na rua. São seres humanos como nós e têm defeitos e também falham. “Muitas vezes falhamos muito mais que eles, porque temos todas as condições para concretizar aquilo a que nos vamos propondo, ao contrário deles”.

É aqui que se distingue o voluntário, porque “criticar é fácil, difícil é ouvir e levar as suas histórias para a nossa vida”.

Apesar da chuva, que agora abrandou, durante cerca de uma hora (graças também a alguns guarda-chuva) estas pessoas podem esquecer-se dos olhares distantes e indiferentes que recebem durante o dia. É nesta altura que sabem que não são invisíveis e que alguém se importa, realmente, com eles.

Para a maior parte das pessoas que se reúnem em torno do carro que transporta os alimentos, ouvir um “olá, boa noite. Como está hoje?” ou receber um simples sorriso é ainda mais importante do que receber a refeição e o bolo que lhes trazem.

Hoje “o senhor Nelson” (forma carinhosa como é tratado pelos voluntários) está sóbrio e todo molhado também, a Graça diz que ele vai ficar doente e oferece-lhe abrigo no seu guarda-chuva enquanto Inês lhe dá a refeição e o bolo. Ele está sempre a apelar para Allah vir salvar a coordenadora.

Sente-se a ausência da “avó”. Era a senhora idosa que punha ordem na fila para receber a comida e que acalmava os ânimos dos mais conflituosos. Há três semanas que não aparecia e na semana passada, alguns dos que cá vêm buscar comida com frequência disseram que ela foi encontrada morta em casa. Esta morte abalou alguns voluntários mais novos que a tinham como uma avó. Mas têm de continuar a sua “missão”.

A distribuição está feita e o estômago aconchegado. Já no carro, a Graça conta que a história que mais a marcou foi a do “senhor Nelson”, porque durante quatro anos de voluntariado, “sem saber, estava a dar comida ao pai de um amigo que ele só conheceu passado 32 anos da sua vida. Este meu amigo dava e dá talheres de plástico ao C.A.S.A. e eu alimentava o seu pai. É complicado percebermos como a vida é vulnerável e frágil e como, muitas vezes, não sabemos quem temos à nossa frente.”

Mais uma paragem nos armazéns junto ao rio, paredes meias com os estabelecimentos de boémia nocturna. “Para a semana a Câmara Municipal vai tirar-nos daqui”, conta o senhor Ramiro que é uma espécie de “guarda” do armazém. “Hoje estão cá seis. Chegaram dois estrangeiros e não tinham onde ficar. Vieram enganados à procura de trabalho.” O voluntário Sérgio dá-lhe as refeições e os bolos. Hoje ainda têm um tecto mas está demasiado frio para conversas. Os outros já estão deitados a tentar aquecer. O senhor Ramiro despede-se e diz que vai tentar fazer o mesmo depois de comer a bela refeição que aquece a alma, como ele próprio afirma.

De volta ao carro, as escovas a tirar a chuva, o rádio está baixo, não dá para perceber a música. Dirigem-se para suas casas e aquelas pessoas que alimentaram vão passar a noite ao relento.

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